O futebol mineiro vive uma era de transformações profundas e cifras bilionárias. De um lado, o Cruzeiro consolidou sua transição com a aquisição majoritária por um gigante do varejo. Do outro, o Atlético se apoia em um consórcio de investidores de diversos setores da economia.
Para o torcedor, que acompanha diariamente o noticiário com o anseio por contratações de peso e pelo fim das dívidas asfixiantes, entender o real tamanho e a saúde financeira dessas potências corporativas é essencial. Uma análise profunda dos bastidores revela quanto faturam as marcas por trás dos donos do futebol em Minas Gerais.
Cruzeiro: a potência do varejo alimentar e o império do “BH”
No Cruzeiro, a governança está centralizada nas mãos de Pedro Lourenço. O fundador do Supermercados BH detém 90% das ações da SAF do clube celeste, trazendo a solidez do setor de varejo essencial para a instituição.
- Bastidores fiscais: um detalhe importante sobre o império de Pedrinho é que o Supermercados BH não torna público o seu balanço financeiro completo de forma aberta ao mercado. A transparência de seus números ocorre por meio da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), entidade nacional para a qual a rede repassa seus dados oficiais. É com base nessas informações que a Abras elabora o ranking anual das principais empresas do segmento no país.
- Desempenho de gigante: conforme os dados consolidados enviados à Abras, o Supermercados BH registrou um faturamento expressivo de R$ 25,7 bilhões em 2025. O resultado garante à rede a primeira posição isolada em Minas Gerais e o quarto lugar no ranking de todo o Brasil.
- Aceleração rumo a 2026: visando expansões agressivas, o grupo concluiu recentemente a compra das lojas da rede Epa. Essa movimentação estratégica fará o grupo atingir a impressionante marca de 600 unidades, com a expectativa interna de impulsionar o faturamento anual para R$ 35 bilhões em 2026.
- O tamanho do lucro: no setor de grandes redes de supermercados, a margem histórica de lucro líquido costuma orbitar de forma enxuta entre 2% e 3%. Ainda assim, devido ao gigantismo do volume transacionado, projeta-se que o grupo BH gere um superávit (lucro limpo) estimado entre R$ 750 milhões e R$ 1 bilhão por ano.
- Diversificação: o ecossistema de Pedrinho vai além das gôndolas. O empresário também atua firmemente no ramo de postos de combustíveis e no setor de agropecuária.
Atlético: o consórcio de bilionários e os números do setor bancário
A estrutura do Atlético é consideravelmente diferente. Em vez de um único dono, o Galo é gerido por uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) pulverizada entre grandes investidores do mercado financeiro e imobiliário, concentrados na Galo Holding.
A divisão entre Galo Holding e Associação
Quando foi constituída, em novembro de 2023, a engenharia societária alvinegra separava o patrimônio da seguinte forma:
- Galo Holding: 75% das ações da SAF do Atlético. É a empresa que injetou o aporte inicial na transição (superior a R$ 900 milhões) e assumiu o controle do departamento de futebol, além de gerir ativos cruciais como a Arena MRV e a Cidade do Galo. Dentro desse organograma constavam Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e outros.
- Associação civil: 25% restantes das ações. Permanece sob o comando do modelo tradicional de conselheiros e cuida da parte social, do clube recreativo e de esportes amadores.
No decorrer dos anos, houve mudanças nos percentuais na medida em que o clube captava recursos no mercado.
Por fim, em maio de 2026, o Conselho Deliberativo do Atlético aprovou uma injeção de capital de R$ 530 milhões, com a maior parte desse valor sendo de responsabilidade de Rubens e Rafael Menin.
Grande parte dessa quantia servirá para quitar as dívidas bancárias do Galo, alem de configurar nova divisão da SAF.
- Rubens e Rafael Menin: passaram de 41,8% para 83,5%.
- Associação civil: reduziu de 25% para 10%.
- Galo Forte FIP: diminuiu de 33,2% para 6,5%. Dentro dessa composição estão Daniel Vorcaro (antes eram 20,2%), Ricardo Guimarães e o Fundo de Investimentos do Galo (ambos tinham 6,5% cada).
Raio-X das empresas dos sócios do Atlético
Dentro da holding, o comando é dividido entre figuras de proa do empresariado brasileiro, cujas companhias operam com balanços públicos gigantescos.
1. Família Menin (Rubens e Rafael Menin)
Principais acionistas individuais da holding, pai e filho encabeçam o conglomerado através da 2R Holding. O grande destaque financeiro do grupo está no mercado financeiro e na construção civil:
- Banco Inter: A instituição digital vive seu momento de maior maturidade financeira. Em seu balanço de 2025, o Inter registrou um lucro líquido recorde de R$ 1,39 bilhão (alta de 43,6% em relação ao ano anterior). No quesito operacional, o banco ultrapassou a marca de 44 milhões de clientes totais e R$ 99 bilhões em ativos no 1º trimestre de 2026, impulsionados por uma robusta carteira de crédito e uma crescente base de captações de depósitos de clientes.
- MRV&Co: o conglomerado da construção civil demonstrou forte recuperação de mercado. Em 2025, a empresa registrou uma receita líquida consolidada de R$ 10,9 bilhões (crescimento de 21%), conseguindo reverter prejuízos anteriores e reequilibrar suas operações.
- Outros negócios: a família ainda detém o controle da emissora de televisão CNN Brasil, da Rádio Itatiaia e de investimentos internacionais, como uma renomada vinícola em Portugal.
2. Ricardo Guimarães
Ex-presidente do clube e acionista do Banco Bmg, Guimarães converteu dívidas antigas em participação na SAF alvinegra.
- Banco Bmg: tradicional no setor e focado na evolução de um banco transacional para relacional, o Bmg fechou o ano de 2025 demonstrando forte consistência em seus resultados recorrentes. A companhia encerrou o período com um lucro líquido de 561 milhões. A carteira de crédito total atingiu R$ 24 bilhões, impulsionada prioritariamente pelos produtos core, como o empréstimo consignado público, cartões de benefício e crédito pessoal. Em termos de captações e liquidez, o banco reforçou seu balanço com estratégias de otimização de mix de ativos e um índice de Basileia de 13,1%.
3. Daniel Vorcaro
Também banqueiro, Vorcaro participa da SAF alvinegra por meio de fundos de investimento. O empresário, no entanto, tornou-se o centro de uma das maiores crises recentes do sistema financeiro nacional.
- Prisão e Investigações: Daniel Vorcaro foi preso preventivamente pela Polícia Federal. A ação apura crimes financeiros complexos sob a supervisão do STF, envolvendo a emissão de títulos de crédito falsos, lavagem de dinheiro e esquemas de repasses milionários a agentes políticos.
- A Liquidação do Banco Master: Paralelamente às investigações, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de seus braços de investimento após identificar insolvência patrimonial incorrigível — uma incapacidade sistêmica de honrar os compromissos, gerando um rombo coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
- Andamento Judicial: O ex-banqueiro segue detido e recorre a novas estratégias jurídicas na tentativa de homologar uma delação premiada, após as primeiras propostas terem sido rejeitadas pelos órgãos de controle devido à falta de provas materiais e caminhos para o ressarcimento dos desvios.
O Raio-X das SAFs: receitas, despesas e dívidas
De acordo com relatórios de especialistas de mercado e balanços oficiais publicados pelas agremiações, os números internos de Cruzeiro e Atlético revelam realidades distintas de endividamento, embora ambos tenham aumentado seu faturamento.
Cruzeiro SAF: o salto impulsionado por patrocínios
O Cruzeiro registrou um salto financeiro impressionante, praticamente dobrando sua arrecadação. O clube pulou de R$ 282,7 milhões em 2024 para R$ 599,1 milhões em 2025. O grande motor dessa subida foi a linha de patrocínios, que saltou de R$ 50,7 milhões para R$ 280 milhões em apenas um ano.
Em contrapartida, os custos operacionais do futebol também subiram significativamente, saindo de R$ 395 milhões para R$ 680 milhões, puxados fortemente pelas novas contratações. O endividamento bruto total registrou alta e superou a barreira do bilhão, fechando o balanço com uma dívida real líquida de R$ 1,15 bilhão.
Atlético SAF: faturamento recorde e o peso da dívida
O Galo registrou arrecadações históricas e fechou o ano com uma receita líquida de R$ 727 milhões. As principais fontes foram os direitos de transmissão (R$ 282 milhões), a venda de atletas (R$ 203 milhões) e as receitas comerciais (R$ 139 milhões).
A operação do futebol alvinegro, contudo, seguiu pesada. Foram R$ 461 milhões em custos operacionais regulares, e a folha salarial consome cerca de 67% de toda a despesa do futebol. Em termos contábeis, o Atlético registrou um prejuízo severo no ano devido ao mecanismo de impairment (desvalorização contábil de ativos calculada em R$ 572 milhões).
O indicador mais sensível segue em crescimento: a dívida líquida do clube deu um salto de quase 30% e fechou o ano na casa dos R$ 2,19 bilhões, pressionada pelo aumento de pendências bancárias (R$ 654 milhões) e fiscais (R$ 487 milhões).
O impacto no campo: expectativa x realidade
Apesar dos bilhões que circulam nas holdings e redes de supermercados desses acionistas, há um detalhe contábil crucial: o faturamento de uma corporação privada não se transfere diretamente para o caixa de contratações do clube de futebol.
Tanto no Cruzeiro quanto no Atlético, os aportes financeiros diretos dos donos servem majoritariamente para sanear as pesadas dívidas herdadas das antigas gestões associativas e estruturar as garantias bancárias para manter o clube operando no verde.
O real poder de fogo no mercado de transferências depende da capacidade de a própria SAF gerar receitas (bilheteria, sócio-torcedor, direitos de TV e patrocínios) de forma sustentável, utilizando o patrimônio e o nome de seus investidores como um escudo de alta credibilidade frente ao mercado internacional.
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